ILHA DE ONS

Se de Portonovo embarcas para Ons terás de ver à direita o areal de Montalvo, desde onde tantas vezes contemplaras a beleza das ilhas. No Parque Nacional das Ilhas Atlânticas aparece este arquipélago como porta e guarda da ria de Pontevedra. Se a de Vigo tem as Cies e a de Arousa o arquipélago de Sálvora –com esse pequeno Noro tão amado–, bem se diria serem todos eles anacos de terra que se desprendessem há milhões de anos, e assim permanecessem polos séculos dos séculos. Mesmo a pequena Cortegada, recolhida e interior, pudo receber os versos do poeta: “Na illa Cortegada poñereille un galán / por pastor das mareas co seu remo na man. / A dorna vai e ven / que meu amor ten”. E aí está a ilha grande, a mais longa de todas as atlânticas, esperando a chegada do visitante. Mas entretanto o sol da manhã fai de prata e cores impossíveis as águas deste mar nosso.

Pouco antes de chegares observas a Onza ou Onceta à tua esquerda, ilha menor e de alto grau de protecção, de jeito que só é possível visitá-la com licença especial  e com fins científicos, e isso está bem, como acontece com a São Martinho das Cies. E quando te dás conta estás no peirão, e polo que ves diante podes levar uma ideia errada. Certo. A ilha de Ons está habitada. Ainda. É a única do Parque que está habitada,  se bem cada vez é menos gente a que fica no inverno de cotio. Dos centos de habitantes que chegou a ter, nas últimas décadas –e nomeadamente os últimos anos– a gente tivo de procurar outros lugares: primeiro indo de ida e volta a Bueu, e daí pensou em deixar de residir na ilha. Demandas de médico, mestre e cura residentes deram pouco resultado apesar de lhes construírem casa de seu. Iniciando a ruta sul, de 6,2 quilómetros e um desnivel de 86 metros, beireas a praia da Area dos Cans, com toda a sua doçura, mentres à direita se podem ver ainda mostras da arquitectura tradicional.

 

O carro do país, até há pouco utilizado, fica ao lado de várias construções, o mesmo que o arado de pau com ponta de ferro.

Isso é memória, claro. E que assim seja e não se esqueça, porque na realidade o primeiro meio de transporte que observas ao desembarcares é o tractor, de grande utilidade na orografia da ilha que se eleva desde o início.

A moça que nos ilustra na ruta guiada da tarde mostra-nos o que fora a antiga escola, e um pouco mais atrás o cemitério onde agora parece que não se enterra já ninguém.

Após a Area dos Cans está a “Laxe do Crego” e a “Praia de Canexoi”, de beleza inigualável, e o caminho vai ascendendo até enxergares o farol de Ons, alá no alto, e toda a linha de monte e praias que deixaras às costas. 

Toda a terra que se pisa é uma explosão de vida, e é vida animal e vegetal a que abrolha por toda a parte. Também os morcegos são espécie protegida, o que se pode ver nas caixinhas e aparelhos que observamos no tronco das árvores.

A ilha é mais doce quando mira a terra, e mais temerosa e bravia no seu lado oeste, e a gente construiu sempre as suas casas olhando para a costa do continente, porque a própria ilha fazia de abeiro e paraventos, como ainda hoje o fai. Será por isso que no suroeste está o mítico Buraco do Inferno, como diz Pedro Feijoo. No entanto é boa cousa não precipitar-se, pois antes é preciso demorar um tempo generoso no Mirador de Fedorentos, onde a vista é sensacional e privilegiada.

 

Acolá estão as ilhas!, dizia Sinbad marinheiro. É uma dessas imagens que reconfortam. O viageiro, quando alá chega, deseja que o tempo pare, que se detenha e não rompa o feitiço.  Desde a ponta Sul que pende à terra está em primeiro plano a inaccessível Onceta, a um palmo da mão. Ao longe em sobreposição estão as Cies, à esquerda o estilizado Cabo Homem –extremo do Morraço–, e quem tiver boa vista pode mais do que imaginar Cabo Silheiro. Uma beleza.

Abaixo, ainda invisível, a enseada de Fedorentos, e em primeiro termo um leito de fieitos que vislumbra a panorámica.

A partir daqui evitamos aceder à Ponta do Rabo da Égua e seguimos o roteiro verde para chegarmos ao Buraco do Inferno. Eis um dos elementos de interesse prévia, porque algumas mentes inquedas e obsessivas gostam sempre de baralhar os lindes da ficção e da realidade. Quem como o nosso viageiro conhecesse este lugar primeiramente pola literatura, terá muito prazer em descobrir que existe tal como se descreve no romance.

É recomendável a leitura do livro de Feijoo –Os fillos do mar–, como outros romances dele que ficcionalizam a partir de elementos históricos e reais. Mas deixando de parte a literatura, o Buraco do Inferno inscreve-se nas “furnas” ou covas marinhas, escavadas polo mar aproveitando as fendas existentes. Das Ilhas Atlânticas, Ons é a que possui maior riqueza de furnas, e esta, com 43 metros de profundidade em vertical, é sem dúvida a maior de todas. Segundo a lenda, a furna comunica com o mundo dos mortos, pois contam que no Buraco do Inferno é possível ouvir os lamentos das almas “que vagam entre os dous mundos, atormentadas no Lume Eterno por mor dos seus pecados”. O ruído infernal do bater do mar, nomeadamente em dias de temporal, assim como os gralhidos dos araus que tempos atrás aninharam no Buraco, poderiam explicar esses sons.

As características da furna, a sua verticalidade, fazem impossível o acesso desde a cima (e é difícil desde a água, só em maré baixa). Porém, um grupo de bombeiros desceu em 2016 (http://www.farodevigo.es/portada-o-morrazo/2014/09/26/baja-buraco-do-inferno-ons/1101347.html).

Sendo precavido, ainda é possível descer pola aba do cantil, de uma inclinação que tende à verticalidade, e situar-se a uns metros por riba da entrada da furna, onde penetra o mar e bate com estrondo alá dentro, e ouvem-se os embates das ondas na escuridade extrema e inacessível.

 

De regresso ao vieiro da ruta Sul, chega-se a um alto de onde se pode ver o ilhó das Freitosas, chamado assim talvez pola fractura das suas rochas e das que formam os cantis desta parte oeste da ilha, orientada cara ao oceano aberto e fortemente influenciada polas ondas e os ventos carregados de sal. 

Aqui a olhada perde-se na lonjania, e é gostosamente reparador enxergar o arquipélago de Sálvora, que semelha uma prolongação da Barbança, mas bem se aprécia a ilha grande, de tão pouca altura, a Sálvora de Cabanilhas onde dorme o seu sono o Rei Artur. Devido à sua planura não se observa a Vionta nem as Sagres, mas aí está o ilhote Noro, alto, arredondado e pétreo. Levedade cromática é a que nos mostra a ideia de Ribeira e  outras casas quase imaginadas, e detrás, pintada com aguarela, a serra do Barbança com o telhadinho bem traçado da Curota.

O caminho desce de modo sensível, abarcando a vista amplas estensões de terra. À esquerda está a ampla enseada de Canivelinhas e a Ponta das Gestas, cujo nome vém da Cytisus Insularis ou Gesta de Ons, espécie exclusiva das Ilhas Atlânticas e com as suas cores amarelas no tempo da flor.

 

Quando se volta para o bairro do Curro a paisagem é menos agreste, adentrando-nos às vezes em imagens fusquenlhas de arvoredo, como se nos levassem à casa da aldeia. 

Mas é o menos, porque o mais são os cimos espidos e arredondados, de maior altura que em Sálvora e sem os cumes elevados das Cies. Temos, porém, o Castro dos Mouros, sem escavar, no Monte do Castro, que se alça até os 76 metros. 

Viajar a Ons também nos confirma o que já sabíamos, se bem de modo mais simples: ser um dos melhores ecosistemas litorais atlânticos, com Cies, Sálvora e Cortegada. O 86 por cento da superfície protegida corresponde à zona marinha que circunda os arquipélagos, “onde os fondos rochosos e areosos e os bosques de algas unem a sua biodiversidade e ecosistemas terrestres sempre relacionados com o mar, como cantís, dunas ou matogueiras costeiras”. O facto de estas águas serem consideradas entre as mais ricas do mundo é o principal motivo de que as nossas ilhas sejam Parque Nacional.

No bairro do Curro, assim chamado como lugar fechado onde se juntava o gado, estão hoje os serviços essenciais da ilha, mesmo as vivendas construídas na metade do século XX para quem nunca chegou a habitá-las. É recomendável demorar um pedaço na Casa de Visitantes e descobrir a cultura das gentes de Ons.  Hoje são mui poucos os que ficam todo ano, ainda que muitos regressam à ilha no verão, ateigando de vida as casas marinheiras.

Em qualquer caso a tarde vai enchendo, e o viageiro leva de volta o peito cheio de vida. Sabe que resta mais da metade, nomeadamente a parte norte da ilha. E sabe imaginar as noites de silêncio e morna paz, submerso baixo esse quadrante estantio das estrelas que dixera o poeta. E fica apenas um olhar às dornas, meio de sustento durante anos das famílias polas águas arredor do arquipélago, varadas ou pousadas onde a praia do seu nome, a Praia das Dornas, ao pé do peirão, onde é possível o repouso debaixo de uma figueira.

 

Se fosse marinheiro de Ons, diria que se deixa alá ao fondo “a vila natal”… Mas essa é agora outra história.

Desde coberta começa o vento do mar, que se fai cálido num instante quando se enlinha a costa de Montalvo e Portonovo. As imagens ajuntam-se em multiplicidade de planos, de horas e recunchos de variedade infinita, como o voo das gaivotas e o revoar submerso e paralelo do corvo marinho. À frente e à direita está Sangenjo, a vila marinheira que viras por primeira vez no sessenta e oito com poucas casinhas e já um incipiente quiosque de postais. E Portonovo, ainda mais portinho de pescadores que polo de hoje vai conservando à par do grande turismo e da modernidade.

Afinal, quando voltas a olhar as ilhas desde Montalvo nas últimas horas do sol-pôr, sentes-te bem, e sabes que foi um desses dias dourados, aqueles polos que vale a pena seguir adiante.

 

 

 

 

 

 

 

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2 respostas a ILHA DE ONS

  1. Fernando di:

    Excelente comentário da viagem, fez-me reviver a mina estância, há tempos, na ilha e especialmente a praia e as augas transparentes. Foi dum enorme agrado a leitura.

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