A CHAMADA DAS QUENDAS (Mondonhedo, 29-04-2016)

Vai aqui reproduzido o discurso que tivem a honra de emitir como “pregoeiro” das Quendas o 29 de abril de 2016 no Auditório Pascual Veiga de Mondonhedo. A partir do sétimo parágrafo pode seguir-se também e video, o que é possível graças à amabilidade do amigo Miguel Freire, que o gravou “in situ” e mo facilitou recentemente.

Senhora alcaldesa, membros da corporação municipal, amigos e público mindoniense! Boa tarde, senhoras e senhores!

É difícil explicar os sentimentos que me invadem ao estar aqui, em Mondonhedo, abrindo a porta com estas palavras a uma nova edição das Quendas. Quando um dia me chamou Miguel Souto, o presidente da comissão de festas das Quendas e as San Lucas, para me comunicar que pensaram em mim como pregoeiro deste ano, trás alguns instantes para digerir as palavras e ter a consciência de que falava em sério, fiquei de verdade sorprendido e dixem que me honrava infinitamente com essa distinção, mas que sem dúvida havia persoas mais indicadas…, porque eu bem sei que alguns me queredes muito desde essas pedras centenárias, e ainda milenárias…, que me sinto –como digo– mui honrado…, mas a minha relação com Mondonhedo é de ir e vir por mor da música e da literatura, por Cunqueiro e Pascual Veiga e Leiras e tantos músicos, poetas, artistas gráficos e gentes de bem. Por todo isso. Certo. Agradeço e aceito… Mas nem sou cidadão mindoniense, claro, e menos ainda vizinho…, ainda que o seja ou o fosse minha mãe. E aí está o grande paradoxo, porque, como se desprenderá das palavras que intento transmitir, sou mais mindoniense do que poderia parecer, e sem Mondonhedo eu não seria nada.

E chegados aqui, poderia fazer um discurso laudatório a esta cidade insigne, que desde o berce foi para mim uma referência contínua. Poderia louvar sem medida, a jeito de panegírico, o seu decurso épico e lírico na história de Galiza. E no entanto prefiro retirar dos olhos esse pano artificioso e nomear, com a subjectividade inevitável, os fios visíveis e invisíveis que aqui me levaram. Nesse sentido, a cidade apresenta-se ante a memória evocadora com imagens de luz e de sombra, com amor saudoso e profunda dor, o que talvez seja comum a outros casos e noutras geografias, como o Macondo literário de García Márquez, o Dublin de Joyce ou o Ourense de Blanco Amor. Isto é o que dixem sempre ao falar de Cunqueiro, e é o mesmo que eu agora sinto, desde a distância que me afasta destas já míticas referências.

Minha mãe sim, claro, e toda a minha família materna é de Mondonhedo. Os mindonienses exercem. Tenho-o comprovado. Levam essas raízes por sempre e por toda a parte, e tenhem fachenda, como fachenda deve ter Mondonhedo, no verso de Leiras, polo maestro Veiga: “Ben pode Mondoñedo dende agora, / anque vista farrapos, ter fachenda”. De Mondonhedo era meu avô, Graciano Fraga González, que fora secretário do julgado, e minha avó Ersília Veiga González, meu tio Gracianinho –Graciano Fraga Veiga–, irmão da minha mãe, e mais a tia Ersi, que se foi a Buenos Aires casada por poderes e alá botou raízes. Quando o Movimento Nacional, no trinta e seis, meu avô foi destituído do cargo: caluniado, traído, acusado de ser contrário ao matrimónio canônico e outras simpatias republicanas. Estivo destituído sete anos, e quando foi reabilitado tivo que saír de Mondonhedo. E toda a família se foi de Mondonhedo para nunca mais voltar.

Medrei entre livros velhos do meu avô, fotos e papéis inumeráveis dele mesmo e do seu filho Gracianinho, que era um artista. Também debuxos, desenhos, quantidade de material inédito. O ano passado Antonio Reigosa escreveu um esplêndido artigo sobre duas pinturas do meu tio, feitas quando contava apenas dezaseis anos e que se conservam no Museu Provincial de Lugo… No ocaso da sua vida o grande Cunqueiro falou-me carinhosamente do pobre Gracianinho, que acabou morrendo aos vinte e seis anos despois de enfermar em Burgo de Osma quando fora mobilizado. Era amigo dele, uns anos máis novo, e era poeta, pintor, debuxante e gozador do teatro e da farândula. Mas dom Álvaro salientava a sua amizade com o pai, dom Graciano, e relembrava o homem de pensamento livre e o deambular de ambos polas silenciosas ruas da cidade nos anos da República. Falava apaixonado do futuro e da liberdade, dizia Cunqueiro, e despois veu o Movimento em contra dos seus desejos e amolaram-no, injustamente, uma canalhada1. Não o cheguei a conhecer. Morreu aos sessenta e três anos, antes de meu pai conhecer a minha mãe, e no entanto a casa estivo sempre cheia da sua presença. A mesa do despacho, a sua letra caligráfica, perfeita, os livros dedicados… De não ser assim não teria eu nascido com um exemplar de Mar ao norde assinado polo génio. E todo isso numa casa ambulante, como é próprio da casa de um ferroviário… porque meu pai era ferroviário e do Bierzo (e essa é a minha outra metade). Em cada traslado, em cada mudança, um vagão de trem ia levando os enseres, a mobília, as cousas que ficaram… E entre elas um disco de vinilo, que era o Himno de Riego, ao que dediquei um recente artigo.

Quando meu avô foi destituído, no trinta e seis, a família tivo que vender todo para sobreviver. Segundo me conta minha mãe, recebia de maneira particular muitos paisanos que lhe vinham consultar este ou estoutro caso, e os mais dos pagamentos eram em espécies, claro, de jeito que tais actividades não evitavam a venda dos objectos que, para além dos mais dos móveis e alguma cousa de valor, era também o gramófono e os discos. Sempre imaginei o que seria a casa familiar alá nos anos vinte e trinta, na rua Júlia Pardo, quase diante do quartel, com aquele gramófono e ouvindo música clássica e moderna. Havia ser verdadeiramente cálido e reparador no Mondonhedo culto e clerical, o Casino de ambiente liberal que no seu dia tivera em Leiras um dos seus homes ilustres e progressistas, o Mondonhedo civil, literário e musical de antes da guerra. E em fim, ao se vender o gramófono, venderam-se também os discos. Todos menos um: o que continha o Himno de Riego. Um vinilo de 78 revoluções por minuto que nunca pudemos escuitar até o ano 74. E sempre me perguntei por quê ficou apenas aquele disco. Por quê não se vendera como os outros? E a resposta é –suponho– a que todo o mundo pode imaginar.

Todo isto que lhes conto são revelações, impressões na memória de um vínculo mui forte que me liga a Mondonhedo. Mondonhedo são as pedras. Mondonhedo é música, é arte e é silêncio. Mondonhedo é o ressoar da Paula, que eu tivem na memória muitos anos antes de poder ouvi-la realmente…

 Sou consciente de ter uma situação privilegiada na minha própria casa que me unia à cidade. A casa foi para mim uma escola de aprendizagem, e foi-no sobretodo pola presença da minha avó Ersilia, que me legou o pouso mindoniense através da música, a sua linguagem lírica e as suas vivências culturais e costumistas. Tinha uma afinação perfeita, cantava a duo com a minha mãe na cocinha e pola casa inteira –Há mesmo canções que só conheço na sua voz!– Na sua voz conhecim a música e a letra da Alborada, e sempre dizia que Pascual Veiga era primo do seu pai. Foi ela quem me dixo por primeira vez que o galego era uma língua. Falava-me de Pardo de Cela, da Ponte do Passatempo, do pular da cabeça dizendo “Credo, credo, credo”. Sabia infinidade de cantares e conhecia os personagens e eventos culturais de antes da guerra. Falava das monxas do asilo, do convento dos Picos, dos nenos de coro da Catedral e dos bispos e persoeiros do Seminário. E ela foi ainda quem me levou duas vezes a Mondonhedo: uma quando tinha eu três anos, e a outra quando tinha oito.

Da primeira pouco me podo lembrar, e nos vagos recordos entrecruzam-se as difusas imagens com o que sem dúvida me contaram despois. Da segunda, em troca, lembro bem a cidade: as estreitas ruas que o bus da empresa Ribadeo atravessava, queimando combustível, os cines que havia a cinco pesetas a entrada, a casa da tia Milagros, alguns rapazes da minha idade que conhecim…, e em fim, a catedral… e o bairro dos Muínhos. Dos Muínhos ficaram dous flashes imperecedeiros na minha memória: um deles foi ver trabalhar um oleiro, por vez primeira. Andando o tempo, e passeando com o amigo e admirado Xe Freire, ele afirmou que aquele oleiro era o seu pai. E o outro flash foi que, mentres eu olhava correr a água, pudem ver como minha avó conversava com um senhor e dixo-me: é meu irmão. Meu irmão Ricardo. O impacto foi grande já naquele momento, porque eu ignorava que minha avó tivesse um irmão… e que esse irmão estivesse em Mondonhedo…

Mas tiveram que passar mais de quarenta anos para eu saber que aquele Ricardo Veiga González, meu tio avô, fosse um homem de importante presença na cultura mindoniense. Formou parte do Orfeón Veiga (o mesmo que o seu cunhado Enrique Iglesias Díaz e o meu avô Graciano Fraga). Foi artista gráfico, e trás estar um tempo na Argentina, introduziu em Mondonhedo a técnica do gravado ao linóleo, como afirma Lence-Santar e recolhe o actual cronista da cidade, Antonio Reigosa. Mas se acudimos ao excelente blog “Miscelánea mindoniense”, de Andrés García Doural, vemo-lo também numa fotografia fazendo parte do quarteto “Os Pachecos”, fundado em 1907. Aí o meu tio aparece tocando o bombo, mas na nota explicativa pode ler-se que D. Ricardo Veiga González, também conhecido polo alcume de “O Bodego”, era filho de José Antonio Veiga Gasalla (ou seja, meu visavó e primo de Pascual Veiga), caixista e encarregado da imprenta Candia da rua Fevreiro de Mondonhedo, e de Severina González Bolaño (minha visavó), vizinhos do bairro das Casas Novas, etc. Na foto do quarteto aparecem cinco porque no meio está o director, D. José Castañeda Jurado, com uma partitura na mão. Mas a mim, por interesses de família, interessa-me salientar a presença do tio Enrique (na foto tocando a gaita), e não é outro que Enrique Iglesias Díaz, o que casou com a tía Milagros. Foi neno de coro da catedral, foi violinista da capela de música entre 1909 e 1920…, tenor, clarinetista… e fundador em 1934 da rondalha “Os Veiga”.

Passeando uma tarde polo bairro dos Muínhos, o amigo Xe Freire sinalou-me a casa do tio Ricardo, Ricardo Veiga, ao tempo que me indicava o lugar onde seu pai tinha o obradoiro: onde eu vira trabalhar por primeira vez um oleiro, em 1962. Para mim são referências importantes, porque na memória se juntam as lembranças particulares, de família, com o que um vai sabendo através dos livros e dos documentos. Por exemplo, hoje podemos ver a importância que tivo Ricardo Veiga como ilustrador na revista Galiza, que dirigiu Álvaro Cunqueiro, ou nos cartazes anunciadores das San Lucas. Mas a ideia que tivem desde neno do tio Ricardo era a de um rapaz algo risonho, que prendia algo na fala ao pronunciar o “r”, e que via como o seu irmão Guilhermo caía do corredor da casa, que não sei como se vinhera abaixo… E mentres o rapaz caía, o tio Ricardo ficava mirando e exclamando: “Aló vai!”. Essa anedota contava-se amiúde na minha família nas sobremesas, e para mim foi definitivo que Xe Freire me mostrasse a casa onde, acaso, tivera lugar aquele curioso episódio…, ainda que não podia ser naquela casa, pois ele foi para os Muínhos de casado.

Hoje estamos aqui, nesta cidade de tão larga, tão longa e tão ilustre história, para dar passo às festas das Quendas, tão antigas, e eu quereria rematar com um alegato em pro da cultura e da vivência nas raízes. Persoalmente, desde aquela segunda viagem quando tinha oito anos, não voltei a Mondonhedo até dez anos despois, quando vinhera cantar ao festival das San Lucas em 1972. Foi a partir daquele dia que o grupo Fuxan os Ventos se chamou assim, porque era o título da canção ganhadora. Despois não lembro de voltar até o enterro de Cunqueiro, em 1981, e possivelmente não voltasse até o 91 para participar nos congressos e outros actos de homenagem ao maior génio das letras galegas. Seria nos últimos anos dessa década quando me chamou o alcalde da cidade (na altura Xavier Loira) para constituir a Fundación Cunqueiro, hoje tristemente perdida na memória, e foi a partir de então que comecei a visitar Mondonhedo com frequência. Cunqueiro e Leiras Pulpeiro foram e seguem a ser motivos de encontro e de criação literária e musical… E a esta altura são igualmente os amigos, as persoas… um outro pretexto para viajar a Mondonhedo… Alguns tão antigos como Ramón Reimunde, outros , como Xe Freire e Antonio Meilán ou Fran Bouso, que conhecim na própria cidade há vinte anos…, e despois toda a gente arredor do Grupo Literário Leiras Pulpeiro. Todos eles galegos “bons e generosos”, que possuem a consciência da realidade que habitamos.

E foi em Mondonhedo onde mais intensamente degustei a grata presença de Manuel María, porque assistíamos às reuniões da Fundación Cunqueiro e despois sempre íamos jantar meia dúzia de amigos, beber um vinho reparador e desfrutar da palavra lírica, mas também irónica e retranqueira, do poeta da Terra Cha. De Manuel María poderia eu contar anedotas diversas com Mondonhedo de fondo, mas toca rematar.

Não sei se estas palavras servirão para abrir a porta das Quendas deste ano… Mas falei do que eu podia falar aquí, que era a minha relação com esta saudosa cidade. E creio que algo fica claro: todo o que há em mim de literário, de artístico, de musical…, procede de Mondonhedo. Todo Mondonhedo estava em mim antes de eu conhecê-lo e visitá-lo. E estava em mim porque o levava posto desde neno, nos livros velhos, nos papéis da casa, na poesia e na música.

Mindonienses, muito agradeço a vossa hospitalidade, o vosso carinho… e aquilo que me une e me identifica, apesar dos avatares da história. Viva Mondonhedo, e vivam as Quendas!

1

Isto dizia Cunqueiro. Ainda que conservo todo o documento sonoro, esta parte da entrevista, tão íntima e familiar, não a publiquei nas edições escritas de 1982 e 2011 (em Homenaxe a Álvaro Cunqueiro, Universidade de Santiago de Compostela, e Grial 192 ), nem no segundo CD que integra Haberá Primavera (Galaxia, Vigo, 2011).

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