UM VINILO DE 78 REVOLUÇÕES

20160410_162223Todas as cousas estão conectadas, como dizia Baudelaire… os perfumes, os aromas, as essências agachadas no fondo da lembrança, as ressonâncias que um está a ouvir, como um eco… a impressão digital que se tem com um livro velho, um vinilo antigo…, a história verdadeira que sempre estivo aí acaso sem nos percatar… E de repente todo abrolha por um sopro de vento, e as essências dormidas acordam e emergem à superfície.

O meu amigo Borja Casal está muito interessado em que conte isto, a história do vinilo. Que o escreva… porque lhe deveu de resultar curioso ou divertido o dia que lho referim indo para o ensaio. Se para mim o tempo se acurta e reprega como um acordeão, imagino o que pode ser para ele, que estes dias cumpre vinte anos. O certo é que o famoso vinilo existe.

Pois estava eu em São Pedro de Nós montando os instrumentos para o ensaio –toco num grupo de rock-blues, De catro a catro, e ensaiamos em São Pedro, num baixo da casa de Manu, o baixista ;)–, quando me chamou Miguel Souto, o presidente da comissão de festas das Quendas de Mondonhedo, para me comunicar que me nomearam pregoeiro no evento deste ano. Trás alguns instantes para digerir as palavras e ter a consciência de que era em sério, fiquei de verdade sorprendido, e esperei a que ele parasse de falar, o que não foi possível e tivem que pará-lo eu, agradecendo primeiro terem pensado em mim, que me honrava infinitamente com essa distinção, mas que sem dúvida havia persoas mais indicadas…, porque eu bem sei que me quereis muito alguns desde essas pedras centenárias, e ainda milenarias, que me sinto como digo mui honrado…, mas a minha relação com Mondonhedo é de ir e vir por mor da música e da literatura, por Cunqueiro e Pascual Veiga e Leiras. Por todo isso. Certo. De acordo, a decisão foi unánime. Entendo. Agradeço e aceito… Mas nem sou cidadão mindoniense, claro, e menos ainda vizinho…, ainda que o seja minha mãe.

Minha mãe sim, claro, e toda a minha família materna é de Mondonhedo. Os mindonienses exercem. Tenho-o comprovado. Levam essas raízes por sempre e por toda a parte, e têm fachenda, como fachenda deve ter Mondonhedo, no verso de Leiras, polo maestro Veiga. De Mondonhedo era meu avô, Graciano Fraga González, que fora secretário do julgado na cidade, e minha avó Ersilia Veiga González, meu tio Gracianinho, Graciano Fraga Veiga, irmão da minha mãe, e mais a tia Ersi, que se foi a Buenos Aires casada por poderes e alá botou raízes. Quando o Movimento, no trinta e seis, meu avô foi destituído do cargo: caluniado, traído, acusado de ser contrário ao matrimónio canônico e outras simpatias republicanas. Estivo destituído sete anos, e quando foi reabilitado tivo que sair de Mondonhedo. Toda a família se foi de Mondonhedo para nunca mais voltar.

Medrei entre livros velhos do meu avô, fotos e papéis inumeráveis dele mesmo e do seu filho Gracianinho, que era um artista. Também debuxos, desenhos, quantidade de material inédito. O ano passado Antonio Reigosa escreveu um esplêndido artigo sobre duas pinturas do meu tio, feitas quando contava apenas dezaseis anos e que se conservam no museu provincial de Lugo, porque fora um dos moços pensionados pola Deputação de Lugo para irem formar-se a Madrid… Gracianinho nunca foi a Madrid, acaso porque meu avô preferiu tê-lo no julgado de Mondonhedo trabalhando, talvez por isso. Polo menos isso foi o que lhe dixem a Reigosa. No ocaso da sua vida o insigne Cunqueiro falou-me com carinho do pobre Gracianinho, que acabou morrendo aos vinte e seis anos despois de enfermar em Burgo de Osma quando fora mobilizado. Era amigo dele, uns anos máis novo, e era poeta, pintor, debuxante e gozador do teatro e da farândula. Mas dom Álvaro salientava a sua amizade com o pai, dom Graciano, e relembrava o homem de pensamento livre e o deambular de ambos polas silenciosas ruas da cidade nos anos da República. Falava apaixonado do futuro e da liberdade, dizia Cunqueiro, e despois veu o Movimento em contra dos seus desejos e amolaram-no, injustamente, uma canalhada. Não o cheguei a conhecer. Morreu aos sessenta e tres anos, antes de meu pai conhecer a minha mãe, e no entanto a casa estivo sempre cheia da sua presença. A mesa do despacho, a sua letra caligráfica, perfeita, os livros dedicados… De não ser assim não teria eu nascido com um exemplar de Mar ao norde assinado polo génio. E todo isso numa casa ambulante, como é próprio da casa de um ferroviário, que navega de Cambre ao Bierzo, de Toural a Verím, de Ourense a Compostela e finalmente á Corunha. Em cada traslado, em cada mudança, um vagão de trem ia levando os enseres, a mobília, as cousas que ficaram… E entre elas um disco de vinilo, que era o Himno de Riego.

Quando meu avô foi destituído, no trinta e seis, a família tivo que vender todo para sobreviver. Segundo me conta minha mãe, recebia de maneira particular muitos paisanos que lhe vinham consultar este ou estoutro caso, e os mais dos pagamentos eram em espécies, claro, de jeito que tais actividades não evitavam a venda dos objectos que, para além dos mais dos móveis e alguma cousa de valor, era também o gramófono e os discos. Sempre imaginei o que seria a casa familar alá nos anos vinte e trinta, na rua Júlia Pardo, diante do quartel, com aquele gramófono e ouvindo música clássica e moderna. Havia ser verdadeiramente cálido e reparador no Mondonhedo culto e clerical, o Casino de ambiente liberal que no seu dia tivera em Leiras um dos seus homes ilustres e progressistas, o Mondonhedo civil, literário e musical de antes da guerra.

A fortuna dos livros foi inversamente proporcional à dos discos. Conservaram-se muitos, e dalguns nunca se soubo, como da Geografía del Reino de Galicia, cujo exemplar da província de Pontevedra se perdeu nem se sabe onde. Dos discos foi ao contrário. Ao se vender o gramófono, venderam-se também os discos. Todos menos um: o que continha o Himno de Riego. Um vinilo de 78 revoluções por minuto que nunca pudemos escuitar até o ano 74. Primeiro porque não tínhamos tocadiscos (criei-me com as canções da rádio até a televisão de 66 e o primeiro pick-up, que só tinha para discos de 33 e de 45 revoluções. Só o pudemos escuitar quando dando aulas particulares de guitarra comprei o primeiro giradiscos Dual-Bettor. Aí começou todo, e aí ouvimos aquelas vozes e aqueles sons. E ficava a incógnita: por quê ficou apenas aquele disco? Por quê não se vendera como os outros? Era delatar-se?

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4 respostas a UM VINILO DE 78 REVOLUÇÕES

  1. Ersi Menéndez di:

    Grandioso texto

  2. Moncho Reimunde di:

    Magnífico texto, César. Digno de ti. Seria um bom ressumo para o Pregom.
    Parabéns!

    • cesarmoran di:

      Obrigado, Moncho! Ainda é agora que vejo o teu comentário, mas agora mesmo estou para publicar aqui, e mais no facebook, o pregom real que tu ouviste o 29 de abril. Abraço.

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