O MAPA DE FONTÁN

dfontan02bNa livraria Suévia da Corunha –rua Vila de Negreira, 32– apresentou-se Fontán, o romance de Marcos Calveiro que foi ganhador da “IX edición do Premio de Narrativa Breve Repsol” em 2015. Como sempre acontece nos actos que se organizam neste pequeno espaço da Agra do Orçã –esse bairro populoso, popular e bem amado–, criou-se desde o início um clima cálido, propício para a arte e o sopro vital do contorno, a palavra expandida e o contacto físico inevitável que as reduzidas dimensões favorecem. Chegar subindo pola rua inclinada e encontrar ainda fora Yolanda Castaño, Víctor Freixanes, Alfredo Ferreiro ou o mesmo Marcos… Entrar e ver as amigas Leli e Ramona, já sentadas ao fondo… e dispor-se a ficar de pé durante todo o acto até que alguém sinala e oferece o único assento livre no espaço impossível…, todo eram os preliminares para que Víctor iniciasse o discurso como editor e cedesse a palavra ao crítico Martin Pawley, membro da “Agrupación Astronómica Coruñesa Ío”, que introduziu decontado o binómio poesia-ciência para abordar com seriedade a existência de um “nacionalismo” que na Galiza se formulou e veiculizou especialmente na imagem nos “poetas”, muito mais que no eido da ciência.

Domingo Fontán, dizia Marcos, percorreu em burro ao longo de dezasete anos a Galiza do século XIX, e assim recolheu os materiais necessários para o seu esplêndido trabalho, sendo o primeiro em realizar uma obra destas características na Península Ibérica. Marcos admira-se de que tardasse apenas dezasete anos. Incrível. Fontán, relacionado e reconhecido na Europa da ciência, foi um desses galegos que construíram futuro. Mas o autor não faz um panegírico do homem nem pretende em rigor fazer história, porque se trata de um relato ficcional, evidentemente. Às vezes a ficção supera a realidade, certo… E sorri quando comenta os protestos dos seus descendentes ou herdeiros ao se conhecer o Fontán professor universitário, as ideias sobre os seus alunos e a sua rigidez como examinador. E aí entra John Ford. Se alguém quer fazer uma obra sobre o oeste americano, deverá pescudar a fondo todo o que estiver relacionado ou tenha a ver com o território desde todos os ângulos… Deverá procurar todo, e despois esquecê-lo. Assim também Marcos Calveiro não toma notas. Durante mais de dous anos documentou-se, leu centos de livros. Não toma notas… Despois começa a redigir. Agora leva tres anos sem escrever. Não se pode ser taverneiro, atender os filhos e ao mesmo tempo escrever.

Marcos Calveiro sabe escrever narrativa ágil e move-se bem arredor da ciência, da arte e de realidades existentes que possibilitem a fluência imaginativa. Uma vez veu ao instituto para um encontro com os meus alunos sobre O pintor do sombreiro de malvas que eles leram, e foi bonito. Mas é possível que eu nem escrevesse este artigo nem fosse à livraria Suévia se não tivesse guardado na minha memória o mapa de Fontán. Marcos conheceu-no, o mesmo que eu, no romance Arredor de sí de Otero Pedrayo. Marcos não gosta do livro, mas diz que essa passagem é o que o salva. Eu gosto. Sempre gostei dessa estrutura circular odisseica como viagem iniciática, de aprendizagem, de conhecimento, e dessa escena memorável em que Adrián Solovio recebe de dom Bernaldo, seu tio moribundo, a consciência do país através do mapa de Fontán. Pois isso mesmo foi o que Cunqueiro experimentou em Lugo, no instituto da rua de São Marcos, e que a mim me transmitiu na última entrevista que tivem a sorte, a fortuna e o privilégio de lhe fazer. Eu tomei, dizia, consciência da realidade de Galiza através do mapa de Fontán, que havia em anacos num cláustro do instituto da rua de São Marcos, onde eu estudava bacharelato… E então eu comento com Marcos e ele diz que será o que está agora na Deputação de Lugo, e que seria um dos originais que se editaram. E penso eu: será o mesmo edifício. Está no mesmo lugar, o mesmo onde o vira Cunqueiro e se lhe instalara na memória, o mapa de Fontán.

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