FEITOS EM CADEIA

É sete de agosto e a cidade está cheia de gente de aqui para acolá, que não pára, com tanto engarrafamento e o cláxon dos automóveis, que o tenhem proibido segundo o código, mas todo dá igual, que tanto tem, porque é a Semana Grande. Aproveitando a feira do livro deveria combinar com o Castinheiras, que lhe tenho o do Moncho, assinado e dedicado para ele desde há tempo e nunca tenho vagar… Mas a vida é assim, tão complexa e todo tão fugaz como dizia o cantar de Massimo Ranieri, L’amore è un attimo, 1971… Antes devo passar por casa da mamá e, bem mirado, deixarei o da feira para a tarde ou mesmo para amanhã, total o livro podo-lho dar ao Castinheiras qualquer outro dia, que tanto tem.

Bem, o caso é que é meiodia e ainda estou na casa… Haver ainda há tempo, pois, para chegar ao Castro, que estou convidado a jantar. Elas comem cedo, bem sei, sobretodo pola mãe que está afeita aos horários normais, mas não importa, tu vem amodinho, sem pressa, tanto dá um pouco antes que despois… Isso sim, se podes traes o pão, essa mesma bola de Vimianzo, ou se não de Neda, que está bem… É perfeito! O pão do país, o recendo da terra que era para Cunqueiro a madalena de Proust. Entretanto lembro que devo ficar um pouco… Oh! Onde teria a cabeça?! Em vinte minutos vai aparecer pola porta um repartidor que vém ex profeso de Compostela e com portes devidos! Como foi que aconteceu isto se o habitual nestes casos é que seja domiciliado? Mas foi assim e agora não tem volta. E para o pôr mais difícil ainda não tenho quartos na casa… agora mesmo… não sei, terei vinte euros! Todo se junta nos momentos mais difíceis… todo amoreado! Menos de vinte minutos. Vou baixar daquela ao caixeiro antes de chegar o repartidor. E vou ao caixeiro, insiro o cartão na fenda e… o que nunca acontece é agora que está a acontecer: como é a senha? Não lembro a senha! A senha do cartão de débito que emprego desde há tantos anos! Como é isso possível? Repito a operação: o mesmo. A senha! Alguma cousa me passa pola cabeça. Tento mais uma vez e… Era visto: cartão bloqueado!!! Tem de haver uma maneira, algo para saír daqui. Verei. Vou experimentar com este outro cartão que quase não uso. É de crédito e por isso não uso… Mas é o mesmo. O problema persiste porque costumo utilizar a mesma senha –ou quase a mesma– nas diferentes contas e nomes de usuário… A cousa começa a ser kafkiana. O que fazer?

Volto à casa. Já o repartidor vai aparecer em qualquer momento. Passar não passaria nada, que venha outro dia… Mas vém ex profeso de Compostela! Alguém chama. Não é ele. É minha filha que está com sua mãe, mas vém porque esquecera algo… Ah! Podia ser… Conto-lhe o lio em que me encontro… É ainda uma nena mas entende como estou, sem dúvida. Claro que o entende! Então teria ela o valor de me deixar esses quartinhos que guarda no seu peto, na mesa da cozinha? Ela deixa, sem problema. É tão riquinha! Também o fará porque me deve de ver a mim a entrar em colapso! Eu devolvo-lhos enquanto for possível, não se há de preocupar. Já chamam! Há ser ele. Certamente é ele. Tenho-o diante da porta com um pacote. Eu pago como se tal cousa, obrigadíssimo, que tenha bom dia, o suor polas tempas e parece que a respiração inícia caminho descendente (O comboio descendente, canção do Zeca). Vaites! E como sempre há um anticlímax, agora a nena espera que lhe devolva o dinheiro decontado! Mas o dinheiro levou-no o senhor, pequena! Ela vai concordando aos pouquinhos, terá o dinheiro amanhã, amanhã sem falta. Foi um favor grande, beijinhos. Uffff!

O tempo rachou entretanto e devo partir sem demora. Passar antes de nada por casa mamá, carro em fila dupla. Entro na panificadora: duas barras de pão. Eu pago e subo à casa da mamá. Que tal, mamá? Todo bem? Quem vai vir por aqui? Vai vir meu irmão, talvez filhos e sobrinhos. Adeus, virei à noite. Beijinho. Agora só resta o gasóleo, o caixeiro e “Ultramarinos Monforte”. Despois já saio pola “Rotonda do Pavo”, que me vém mais à mão e vou direção Arteixo para conectar com a A6. Todo perfeito. De repente…, merda! Antes paguei as barras e não as levei! Ficaram alá na padaria. Então levo daqui. Compro outras barras para casa mamá, uma bola de Vimianzo para o Castro e uma garrafa de Mencia da Ribeira Sacra, que está bom. O tempo passa. Como se me botou en riba? Saio decontado com os planos na cabeça, quase chegando à rotonda do Pavo e nesse preciso instante tenho o convencimento de precisar ajuda psiquiátrica: deixei as barras em Monforte, outra vez, as novas barras! Igual que antes, já pagas!!! Pausa. Colher folgos… Bem, tranquilo. Ante todo muita tranquilidade. Pensar o que fago nestes casos: pensar no pior que me pode acontecer na vida… Tranquilo. Comparado com isso, isto não é nada. Adiante. E sobretodo não perder a concentração. Troco de planos. Agora já não vou pola autovia de Arteixo. Tanto tem. É um trabalho de recomposição mental. Já enlinho pola Ronda de Nelle e repito a manobra: carro em fila dupla, panificadora. A moça que sorri: As barras! Aí estavam, esperando por mim. Adeus! Obrigado! Onde teria a cabeça? Passa-lhe a todo o mundo. Subo, bico, mamá, vai amodo, tranquila.

O que resta não deveria ser problemático. Farei como costumo ultimamente: saio da cidade, desvio à direita, subo à Zapateira e no cimo entro na rotonda provisional no que vai ser a “terceira ronda”. Chegado alá é todo autovia, o novo acesso ao aeroporto e confluência com a A6 à altura de Ledonho. Ainda bem que chegarei para jantar, um pouquinho tarde, mas não tarde de mais e chegarei em tempo. Subo pois a costa da Zapateira, deixo à direita o campus universitário, chego à rotonda. Quantas vezes eu passaria essa rotonda provisional, a seguir um passo estreito que me leva ao primeiro túnel, e todo direitinho? Quantas vezes? Sei-no com os olhos fechados, tão fechados tão fechados que nem reparo em que hoje há variações na saída… Dou uma volta completa à rotonda e acabo saíndo por onde não era! O máximo! E agora a conduzir por uma estrada fantasma até encontrar nalgum momento o ponto adequado para a viragem! Agora já é um pesadelo certo. O ritmo cardíaco aumenta sem dúvida, ou isso parece. Quanto mais tempo passa menos sossego e menos acougo… Aí! Aí à direita parece que se abre um espaço mínimo para fazer o giro. Gira o mundo gira… Volta de cento oitenta graus. Quantos quilómetros? Quem o sabe? Alguns, três ou quatro, talvez cinco…! Recuperar a rotonda e saír, esta vez sem erro, polo novo tramo que emboca nos túneis.

E agora atento aos limites de velocidade, primeiro por segurança, claro. Isso é sempre o primeiro. Atenção aos radares, que há muitos. A autovia está bem, do melhorinho, não como a de Arteixo com essas curvas insólitas. Está bem. Devo ter cuidado na saída, essa que tenho de tomar, a de Abegondo-Carral. Lembro o dia aquele quando me parou a guarda civil, aquela patrulha agachada naquele saliente como quem espreita por um funil a promesa de maio (canção do Fausto). Eu mui atento, não vaia ser… Primeiro tomar a saída…, daí a pouco ceder o passo… e finalmente um stop. É um stop com muita visibilidade, a curva é ampla, sem problema. Lembro bem aquele dia. Eu penso que parei de todo, mas alá estava a patrulha indicando-me parar, metida no curruncho entre a floresta. O guardinha a me pedir documentação e as perguntas todas. Sabe que há um stop, Sei, claro que sei. E parei, eu penso que parei, Não parou de todo, De todo não? Desculpe, eu pensava que parara de todo, passo por aqui tantas vezes, Não, não parou de todo. De todo é quando o veículo está parado com as quatro rodas! Desculpe, eu, Mas são 200 euros e quatro pontos, Uffff! Bem, desta vez passa, mas para a próxima já sabe, agora siga, Muito obrigado! …… Seria muito, mas todo podia ser. Desta vez parei com a máxima lentitude. A patrulha não estava. Afinal cheguei sem problema. Algo tarde, mas o jantar estava óptimo.

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