SONHO DE NADAL

Havia tempo que não lembrava um sonho, menos ainda um pesadelo. Será porque fiquei dormido no assento do condutor na mesma praça de garagem, despois de chegar às duas e meia da manhã. A entrada no Nadal. Isso é o que acontece. Decerto foram dias de ritmo frenético, quase sem acougo. Primeiro as aulas, despois a viagem a Pontevedra para a Gala dos Prémios, dormir tres horas e voltar em trem para as aulas da manhã, reunião de trabalho, entregar os boletins e um rio de cento e cinquenta alunos pola Ronda de Outeiro cara ao cinema.

Ao dia seguinte sexta feira, a última do trimestre: aulas descontínuas, o vídeo que não vai. Configurar programa. O tempo que passa. Finalmente o tradicional vinho-comida de Nadal no mesmo centro: a primeira, a entrada nas férias. Os brindes, o humor de Quique, a doçura de Dulce, a alegria de Maica. Assim não há quem tema Virgínia Woolf! Às oito o recital com os poetas e com Lugris ao fondo, e já seguido, contra as once, o concerto de TRAC no Garufa: Smoke on the water, Stairway to heaven… Quando todo acabar serão as quatro da manhã! Que difícil é subir da garagem com a guitarra escaleiras arriba! E o corpo todo que pesa como chumbo!

O caso é que levamos os alunos ao cinema –ao teatro talvez? Ou seria música?– Em sombra nevoenta é preciso saír do edifício e petar na porta do que chamaríamos um mosteiro…, como o de São Martinho Pinário ou Santo Estevo de Ribas de Sil. Mas estava incrivelmente acaroado. De a pouco sai um frade que devia de ser como frei Barragán de Fray Escoba, o de Marcelino, ou mais bem o que viveu trescentos anos sob o canto da paxarinha…, oh my god! Entretanto na livraria Sisargas estamos a berrar: “Menos derrotismo / e mais surrealismo! / menos derrotismo / e mais surrealismo!, com Lugris na memória.

Não sei como é que entramos, mas o seguinte plano fílmico já contém a sequência do grande salão. Ao princípio não reparara, mas ao pouco vim que o cenário, a “scena” ou o “ecrám” do cinema estavam na parte alta, mesmo no cimo, de jeito que os últimos das filas olhavam de abaixo para arriba incomprensivelmente. O balbordo crescia cara a diante e foi então quando o meu estado não pudo já resistir e exclamei com voz alta e clara: “Bem. Até aqui chegamos. Todos os que estão desta parte para arriba saiam decontado! O que digo”.

Profe, como que sair?

O primeiro é saber estar, e bem vos avisei.

Todo começou a dar voltas. Eu encontrava-me no meio do salão, mais ou menos, e portanto também a meia altura. E enquanto os alunos traçavam movimentos indefinidos e imprevistos a minha cabeça dava voltas pensando que acaso tinha chegado mui longe. Talvez me passara. Não havia dúvida. E em todo o caso, como iam ficar sós apenas os de abaixo? Era todo um despropósito. Um erro irreparável. E foi quando despertei, finalmente, no meu quarto, com enorme cansaço e toda a terra a rodar. Sentir que é uma maravilha estar na casa, quase desperto, e sentir que fora quem de dar saída a um pesadelo insolúvel…

E o pior foi lembrar, como nun sonho, que no instante álgido do drama um aluno infeliz me punha os olhos em fite perguntando:

– “E eu por que? Eu portara-me bem!”

Esta entrada foi publicada en Sen categorizar. Garda a ligazón permanente.