A ESMORGA, DE IGNACIO VILAR

 

10734251_890936690931332_3253754363433617157_nQuando se vai ver um filme que versiona uma obra literária, não é preciso conhecer o ponto de partida para gostar, valorizar e desfrutar da peça cinematográfica. Essa é –tem-se dito– uma deformação observada a miúdo entre nós e entre alheios. Mas acontece que às vezes, como neste caso, o visionado do filme a partir do livro resulta inevitável. Levávamos muito tempo na agarda desta estreia porque acreditamos decerto no fazer de Ignacio Vilar, porque o elenco de actores era, desde o início, um garante, e porque A esmorga é um dos romances mais emblemáticos da literatura galega, único no seu momento e no seu género, e representa ainda hoje a amostra essencial da narrativa da após guerra nesse perfil sócio-realista tão particular que Blanco Amor cria, e que estabelece o contraponto ao singular mítico-realismo inventado por Cunqueiro.

Onte fomos ver, por fim, essa obra tão esperada, sabendo também das dificuldades que o cinema galego encara frente ao gigante económico e mediático. Havia contodo cousas bem feitas a priori: publicidade estática nos últimos dias, certa ressonância em canles audiovisuais, entrevistas e comentários nomeadamente na imprensa digital e actividade nas redes sociais. Apenas se precisava –e se precisa– a assistência da gente. O espectáculo estava preste para começar… e começou. N’A esmorga de Ignacio Vilar vemos sem dúvida o texto de Blanco Amor, com uma fidelidade admirável já desde as primeiras cenas. É mui de agradecer o esforço linguístico dos actores e o interesse por refletir uma língua autêntica nos registos sociais e dialectais que o escritor ourensano projectara. O leit motiv da chúvia como espaço simbólico na opressão dos protagonistas, o pensamento como expoente da conflitividade psicológica do Cibrán, o espaço fechado e itinerante de onde não é possível sair para nengures, a funcionalidade do álcool num estado degenerativo de personagens de extração social ínfima, sem consciência de classe, numa bacanal de dor e de incerteza sem qualquer horizonte à vista…, todo está presente no filme com o esmero e a pulcritude de quem respeita um clássico contemporâneo. Por outro lado, o seguimento pontual do âmbito dos bordéis, onde os personagens acham abeiro e conforto face à adversidade da rua, permite um dinamismo altamente expressivo em que salienta a altura interpretativa das actrizes e o pormenor realista e lúdico na sede e na doença.892225_772957979395871_468659688801436217_o

Também achamos, é verdade, algumas surpresas ou fazeres que outros levariam a efeito de outro modo. E aqui entra em questão o facto de conhecermos ou não o texto original. Algum espectador vizinho que não lera o livro, e com quem falei afinal, entrou desde os primeiros minutos num espaço depressivo de onde não saiu até o final, o que nem é estranho nem desmerece comentário. Aqui há um ponto chave: o tempo lento que se imprime ao filme e que, sem dúvida, não era a única possibilidade, pois o texto de Blanco Amor tem um ritmo de leitura mais ágil e dinámico na sua brevidade como romance. Esse tempo lento, ajudado por cadências musicais de piano inquietante, intensifica a angústia das personagens na linha do melhor cinema francês ou nórdico dos sessenta, o qual é um valor, mas o modelo também poderia ter sido o cine italiano da mesma época (Fellini, por exemplo), o que ganharia em dinamismo, agilidade e um maior destaque dos traços humorísticos que o livro contém. Nada impede, no entanto, que em todo momento vejamos a obra literária na longametragem, tanto polos cenários como pola entidade das personagens, magistralmente interpretadas. Diria-se talvez que a obra é a presença dos tres esmorgantes que Blanco Amor perfilara: o Cibrán que sai da casa de manhã para ser vítima dos acontecimentos, na memorável interpretação de Miguel de Lira, incrivelmente esplêndido na voz, no dizer natural e fluído, impecável nos acenos. O complexo Milhomes, de ambígua e insatisfeita natureza e proceder compulsivo, que Antonio Durán Morris deixará como um fito para a posteridade. O Bocas ressoluto e brutal encarnado de jeito encomiável por Karra Elejalde, acaso mais introspectivo que bestial a respeito do romance. Especialmente cuidada a dupla visita à casa dos Andrada, essa porta aberta ao mundo imaginário e mórbido que o escritor ourensano abrira desde o realismo, como quem por um momento se instala nas esferas de Dickens no acesso ao sonho desde o abandono e a miséria. E igualmente cuidado o espaço do paço do Castelo, âmbito voraz e sensual de lume e bebedela que precipita a fugida e a tragédia. Porém, entre os cenários tópicos do Ourense que o texto descreve (as ruas antigas, a catedral com a mesma capela do Cristo, a igreja de Santa Maria a Maior, a fonte das Burgas ou os referidos ambientes prostibulares de arrabaldo), temos a novidade de fermosas paisagens de bosques e fervenças que é obrigado salientar. E é por elas que o Bocas encara como um obsesso a procura da derradeira ignomínia.10619966_882340111790990_2344091731698912404_o

Quanto ao tempo, Ignacio Vilar instala as vinte e quatro horas da história narrada na Galiza do franquismo. Tal deslocamento temporal devemo-lo ler como um proceder bastante comum em casos semelhantes, que achega a conflitividade social à percepção dos espectadores. É certo que Blanco Amor situa estes feitos mais de cem anos antes, mas A esmorga aparece publicada em 1959, em plena ditadura franquista, e o tempo de produção possibilita ao público leitor identificar as torturas da Guarda Civil com o que acontece nessa altura. Olhado desta óptica é doado substituir a figura do “deputado” que viria inaugurar as obras da nova estrada pola do “caudilho”, e mesmo introduzir a referência ao encoro de Velle, inexistente no tempo do romance. Alguém poderia achar em falta –cousa à parte- uma maior presença do plano espaço-temporal do interrogatório, presente no filme, mas sem a conflitividade de classe, de estátus, de poder e de língua que tem no romance com um evidente relevo funcional. Ao não existir este plano, fica também suprimida a ambiguidade sobre o final do Cibrán, limitada agora a uma legenda fixa no ecrã que reproduz as palavras finais do romance. Fica a dúvida de se o espectador identifica no texto esse “alguacil” e esse “tio” do cronista. Mas seja como for, e voltando ao princípio, seria um erro reduzirmos a leitura do filme a uma simples relação dependente do livro, e no fim de contas o que de verdade importa é esse rio emocional que nos invade, essa força verbal e as humidades do corpo e do espírito, a tragédia de uns homens molhados pola chúvia num périplo circular de fugida cara à morte.

De resto, esta Esmorga constitue certamente um passo decissivo na história do cinema galego, um cine galego autêntico, feito com profissionalidade, com seriedade e com a paixão da terra. O sucesso dependerá de todos nós.

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8 respostas a A ESMORGA, DE IGNACIO VILAR

  1. Borja di:

    Magnífico! Exercicio de bo cine e exercicio de boa crítica cinematográfica!

    • cesarmoran di:

      Obrigado, Borja! Levas uma boa carreira porque estás em todo, em todas as lides e em todas as artes. Fai-se o que se pode: no cinema, na literatura…, na música, como bem sabes como colega partícipe. Apertas e até o próximo ensaio, que hoje creio que latamos todos.

  2. Concordo plenamente co grande amigo Moncho Reimunde. Grande Blanco Amor, grande Ignacio pero tamén inmenso o noso querido César Morán.

    • cesarmoran di:

      … e grande o amigo e companheiro Henrique Rabuñal… e os seus alunos/as de 2ºBAC do IES Agra do Orzán, que algo meus também serán… digo eu.

  3. miguel mato di:

    moito bom, César. Non vin a peli mais a túa crítica fai desexar vela. Levas razón no comentario do comezo sobre a necesidade ou non de ter lida unha obra literaria para ver a súa realización cinematográfica. Sempre a mesma discusión. Que sempre se fai necesaria e se agradece. Uma aperta fonda. Miguel

    • cesarmoran di:

      Agradeço, Miguel as tuas palavras. O filme vale bem a pena. Outra cousa é que eu, ou qualquer outro, o pudéssemos fazer diferente nalguns aspectos… se soubéssemos, claro! Falamos e uma aperta.

  4. Moncho Reimunde di:

    Este comentário do filme A Esmorga, confirma uma vez mais, que César Morám é um dos melhores críticos literários do país, cousa que alguns já há muito tempo que sabíamos.
    O seu conhecimento fundo da obra literária de Blanco-Amor não lhe impede ser um fino intérprete da obra fílmica desse magnífico Ignácio Vilar (- luxo para Galiza e a causa-), autenticamente galego, como o foi Chano Pinheiro, e para apreciar o arte dos excelentes atores com delicada sensibilidade, sempre compreensiva com interpretações divergentes do cânone. Gostei muito deste texto e até me deu mais vontade de ver o filme, cousa que farei o primeiro dia que poda ir ao cinema.

    • cesarmoran di:

      Obrigadíssimo, amigo Moncho, por essas palavras, tão cheias de carinho e mesmo excessivas para o meu artigo, que o escrevim apenas por sentir a necessidade de fazê-lo. Um abraço!

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