COUSAS MIÚDAS

 

Para os que temos dado aulas no BUP durante anos, a chegada da ESO foi um cámbio quantitativo e qualitativo. Uma das principais novidades, sem dúvida, foi a chegada dos rapazes que antes cursavam nas escolas de primária os dous últimos anos e que agora estudam, com essa mesma idade, nos institutos.

Este ano dou aulas em primeiro da ESO e tenho alunos mui activos. Uma boa parte deles não para, o qual impõe um ritmo de trabalho vertiginoso. Alguns são, na verdade, mui pequenos. Quando olhamos para eles é difícil passar sem perguntarmo-nos: como é possível que estas cousas miúdas circulem polas aulas e corredores do instituto? Mas é assim.

Tenho um aluno que é um encanto. Sempre a sorrir, com vontade de agradar. Visivelmente semelha um neno. É um neno. A face regordinha, o cabelo curto, os óculos grandes tendentes ao desenho duma caricatura. Diria-se que fosse tirado de uma vinheta de banda desenhada. Por dentro da cabecinha também é ingénuo e infantil, mas tem inteligência e tira conclusões bem atinadas. Sempre está a erguer a mão e responde normalmente com certeza. Um dia ficou a olhar para mim, como fazendo-me ver que eu não reparava em algo:

E não me ves nada novo?

O que?

Ah!!! Cortara o cabelo… Um pouquinho…

Outro dia, ao rematar a classe, veu-me com um debuxinho: um jogo de círculos, quadrados e triângulos, bem entrelaçadinhos, até fazerem afinal uma bóla policromada, e um pouco incrustado uma sorte tavoleiro de mesa que igualmente poderia ser um prato voador. Todo pintadinho de diferentes córes, sem sair das linhas. Achegou-se e deu-mo.

Toma.

E logo? E isso? Esse debuxo tão bonito? Fixeche-lo tu?

Fixem.

Ah! Mui bem. E por que mo dás?

É para ti!

Para mim?

Levei-no, e guardei-no como quem guarda um tesouro meio oculto.

Ao dia seguinte, ao entrar na aula já vim que me procurava com a olhada. Fum para diante, passei perto dele e, daí a um instante, dixo-me:

E tu tes filhos?

Tenho –respondim.

E que che dixérom do debuxo?

 

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