ROSALIA OU O ENGADO DA PALAVRA

 

CASTRELO-CAMBADOS 008Pediu-se-me que falasse das possibilidades didácticas dos Cantares, ou mesmo sobre os textos musicados, e em todo caso salientar o meu primeiro contacto com a obra rosaliana. E eu, que gosto de colher o fio da palavra, quereria actualizar aquilo de “Así mo pediron / na beira do mar, / ó pé das ondiñas / que veñen e van”. Possibilidades didácticas? Todas! São moitos anos a explicar nas aulas este livro emblemático, especialmente quando se dedicava o terceiro curso de bacharelato ao estudo da literatura. Agora, quando os novos planos educativos amostram cada vez maior desprezo pola literatura como alimento vital e fonte de conhecimento, é o momento de afirmarmos o seu valor, e é aqui onde a obra de Rosalia, convertida num símbolo mesmo para os galegos que a o leram, constitui um referente material e ideológico que substitui a realidade até se identificar com ela para a defender, transcender e nos dar a força e o alento no longo caminho.

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Lembro como abala no tempo uma velada de colégio de fins dos sessenta. Era um rejo edificio de pedra onde mal podiam entrar os estrondos do “maio” francês ou os ecos das revoltas em Compostela. Naquele espaço intramuros não só era para nós imperceptível a abafante ditadura de pós-guerra, senão que também estava ausente a mesma realidade linguística da contorna, a não ser polas mulheres que vinham trabalhar às cozinhas com o seu falar tão estranho e tão vulgar, onde era rechamante o seseio e uns sons guturais que a nossa ignorância não dava interpretado. Assim é que naquele mundo fechado, inserto nos vinhedos e próximo da ria, a língua não era outra que a de Castela, de onde provinha boa parte dos centos de rapazes que ateigavam o internado. Naquela velada, digo, que era um acontecer habitual no estudantado adolescente, irrompeu uma voz no fondo do cenário:

Adiós, ríos; adiós, fontes; / adiós, regatos pequenos; / adiós, vista dos meus ollos; / non sei cándo nos veremos”.

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Na atmosfera enevoada de luzes esvaídas emergia o personagem do drama: levava un pára-águas e uma mala de cartão. Abalava na escena com uma expressividade nunca vista. O auditório ficara num silêncio abraiante e o ressoar da voz era uma força telúrica: “Mais son probe e, ¡mal pecado!, / a miña terra n’é miña, / que hastra lle dan de prestado / a beira por que camiña / ó que naceu desdichado”. Agora, nesta altura, bem se me debuxa na memória a figura do actor. Era um homem do país, que alternava tarefas educativas com o cuidado da horta e outros mandados. Tambén nos ensaiara un coro de cantigas tradicionais como a “Foliada de Carril”. Chamavam-lhe dom Luís, tinha o sotaque marcado e era mui respeitoso com todo o que fazia. Eu, abeirado a carão das bambolinas, ficava preso no engado da palavra sem saber que iniciava talvez uma viagem sem retorno: “-Non me olvides, queridiña, / si morro de soidás… / Tantas légoas mar adentro… / ¡Miña casiña!, ¡meu lar!”.

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Se quadra aqueles versos já os conhecia de antes, mas foi então quando os guardei na memória, e é por isso que os podo transmitir aos alunos nas aulas. Muitos anos despois aprendim o significado do livro: o momento crucial da nossa história, a consciência da voz e o realismo do seu prólogo, assim como a fluência do verso que denota uma moça enérgica, dinâmica e dotada do maior arrouto para a improvisação. Quem quiser musicar os poemas de Rosalia não tem mais que seguir o ritmo dos seus versos, porque todo é musical. E não apenas na “Alborada” (poema 35) se atém a autora antes que nada ao tempo da música, pois algo semelhante fai em “Miña Santiña, / Miña Santasa” (5), “Acolá enriba / na fresca montaña” (14), “¿Qué ten o mozo?” (27) ou “-Vente, rapasa” (30).

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Cantares gallegos, primeira e grande obra prima da nossa história, deve ser lida e comentada nas aulas também polo seu valor narrativo (toda uma arquitectura polifónica), pola presença de elementos simbólicos que haverá despois eFollas novas (“Duro cravo me encravaches / con ese teu maldesir” (2), pola audácia na crítica social e a denúncia da opresão individual e colectiva, e pola enorme riqueza da linguagem, uma fonte inesgotável onde bebermos, máxime nun tempo em que o galego se empobrece com textos pensados para o ensino desde fora do idioma, com a merma progressiva do seu ser mais autêntico.

ESTE ARTIGO FOI PUBLICADO NO SEMANÁRIO SERMOS GALIZA  O 14 DE NOVEMBRO DE 2013.

 

 

 

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