SOBRE A INTRANSIGÊNCIA NORMATIVA E O REDUCIONISMO LINGUÍSTICO

 

Através do facebook suscitou-se um debate sobre certas entidades de povoação bercianas, nomeadamente as que rodeiam o lago (ou os lagos) de Carucedo, incidindo o colóquio em se era lícito chamar-lhes “povos” ou se esta palavra não pode empregar-se para lugares, lugarejos, aldeias, vilas, cidades…, como a santa regra nos manda. Eu, que nascim ‑­no dizer de Castelao‑ na Galiza irredenta, sei que a minha localidade natal não tem traços de aldeia nem talvez tivesse daquela entidade de vila no sentir da gente. A família do meu pai nunca chamou “aldeia” à sua, quando esse seria o nome que lhe corresponderia segundo os critérios demográficos do ocidende da Galiza, por exemplo.

Quando o debate aludido se polarizou, forom saíndo ideias muito interessantes sem que eu pudesse evitar as opiniões que reproduzo.

Aos meus alunos ensino-lhes que, em geral, o termo “povo” designa em galego a colectividade de indivíduos, e assim se fala do “povo galego”, o “povo espanhol”, o “povo trabalhador” ou simplesmente “o povo” em oposição à classe dirigente, por exemplo. Mas é evidente que as línguas não são rígidas na sua feição externa nem na complexidade interna dos seus elementos. Neste sentido, a normativa imperante do galego está a fazer enormes estragos na riqueza idiomática (morfologia, léxico, fraseologia…, também fonética…), porque em vez de empregar um critério sumativo utiliza um proceder eliminatório. Um proceder deste tipo seria, ponhamos por caso, afirmarmos que “ensinar-lhe algo a alguém” deve eliminar-se em benefício de “aprender-lhe algo a alguém”, quando as duas formas são usadas na prática, e mesmo quando a segunda seja uma inversão do significado próprio. A intransigência normativa está a criar um forte reducionismo nos usos lingüísticos em todos os ámbitos da sociedade, quer no ensino (onde os alunos estão cada vez mais impossibilitados para lerem, sem ir mais longe, os nossos clássicos do século XX), quer nos ouvintes e espectadores dos “mass media”, onde se está a transmitir um “padrão” linguístico claramente empobrecido e onde, além disso, se produz o paradoxo de serem os profissionais da rádio e da televisão, em muitos casos, menos competentes na expressão linguística do que os próprios cidadãos entrevistados. Assim as cousas, e voltando ao início, se os dicionários portugueses dão como possível o emprego de “povo” para se referir a uma entidade de população, não imos ser nós quem lhe levemos a contrária ao que se admite no tronco comum ao que o galego pertence.

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